quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A arte de não fazer nada.



A verdade o que todos querem fazer, é: não fazer nada.
Nós trabalhamos, ganhamos dinheiro, pra um dia poder ficar sem fazer nada.
O ser humano inveja os animais porque eles não precisam trabalhar, levantar cedo, bater ponto, etc. Eles levantam, comem e dormem de novo. Não precisam fazer nada. Não tem compromisso. Não estão sempre correndo, com pressa e com prazos atrasados. “olha cachorro, até queria ficar aqui contigo batendo papo, sem precisar fazer nada, mas tenho um osso para enterrar, já está atrasado”.
É feio não fazer nada. Afinal de contas: “Cabeça desocupada é oficina do diabo”, quando estamos a muito tempo sem fazer nada o diabo usa nossa cabeça como locação. Um terreno vago. Monta uma barraca.
O ápice do ser humano é fingir que está fazendo alguma coisa para que não mandem fazer alguma coisa. E esse trabalho todo é para o que? Pra poder ficar sem fazer nada.
Mas não estar fazendo nada, incomoda as pessoas ao redor. Causa inveja nelas. “Espera aí, o cachorro tudo bem, agora você? Negativo. Pode ir fazer alguma coisa.”.
As mães são especialistas em não te deixar ficar sem fazer nada. A mulher é. Nunca fale perto de uma mulher que você não tem nada pra fazer, pois ela arrumara.
O homem só toma banho, trabalha, ganha dinheiro por causa das mulheres, se fossemos só nós, não faríamos nada disso. Não faríamos nada. Se não fosse a Eva, estaríamos até hoje no Paraíso, só de samba-canção vendo futebol. O mendigo é um homem que atingiu esse nível de aceitação do nada. Ele é um expert, pós graduado, na arte de não fazer nada.
Mas é muito mais difícil você não fazer nada sem dinheiro, do que com dinheiro. Pobre que fica sem fazer nada, vagabundo. Rico que fica o dia inteiro sem fazer nada, bom vivant.
É difícil ficar sem fazer nada, é caro, você está tão acostumado a sempre estar fazendo alguma coisa que quando se pega sem fazer nada se sente culpado.
Bons tempos eram aquele de criança, em que você podia ficar o dia inteiro sem fazer nada, sem peso na consciência, sem ninguém se incomodar com isso.

- Amor, o que você está fazendo?
- Nada.
Silencio.
- Nada?
- Nada!
Silencio.
- Não ta assistindo televisão?
- Não.
- Mas ela ta ligada.
- Mas eu não to vendo.
- Então porque não desliga?
- Porque eu não quero fazer nada.
Silencio.
- Vamos fazer alguma coisa?
- Não.
- Nossa que preguiçoso.
- Pois é.
Silencio.
- Posso ficar aqui com você sem fazer nada.
- Pode.
- Mas como que não faz nada.
- É só ficar quieta.
Silencio.
- Nossa, como é bom ficar sem fazer nada. Fazia tempo que eu não ficava sem fazer nada. Também nos dias de hoje, com tanta coisa pra fazer é impossível ficar sem fazer nada. Devia fazer mais isso, não fazer nada. Ta aí, daqui pra frente vou tirar mais tempo pra não fazer nada. Depois vou postar isso no twitter.
Ele olha pra ela de canto de olho. Ela para.
Silencio.
Ela levanta.
- Não quero mais ficar sem fazer nada, é muito difícil.
Ele suspira aliviado e volta a não fazer nada. Sozinho.

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